Calafrios

Enquanto todos conversavam, os dois se olhavam. Profundos, nítidos, se entendiam sem palavras. E aquela cumplicidade era a vertente mais extraordinária que continham. Na entrega do beijo se esfregavam ofegantes. O entra e sai descompassado pela casa não permitia mais que isso. Seus corpos, no entanto, pediam muito mais. Riam-se desmedidos encostados na janela. O roçar dos seios, a mão na nuca, o sopro no ouvido, a palavra sussurrada, o bailar das pernas, o contrair do púbis... Já emanavam sexo e era impossível continuar ali encostados naquela parede que já derretia. Como num jogo telepático, decidiram pela fuga. E então num súbito desvario, ela o conduziu até o banheiro.

Trancados, esqueceram dos ponteiros. E se amaram selvagens pela relva de azulejos. Da saia à calcinha, esvaídas fumaças. Os dedos entregues, as mãos orquestradas e na boca o fálico a pulsar de alegria. Ela sugava, lambia, mordia e lançava pra cima olhares lascivos, enlouquecendo aquele macho que de manso, nada tinha. E então no quase gozo ele a puxou pra cima, e foi então sua vez de esconder-se na mata. E sua língua latente arrancava os versos da vagina e flutuava solene sobre o botão que já desabrochava. Ela puxava os seus cabelos, ele sugava ainda mais. Puxando-o para cima, ordenou que a penetrasse e ele obedeceu, deslizando para dentro. A casa, pequena, ecoava em suas buscas, mas os dois estavam colados e desgrudar não mais cabia.

E num louco penetrar, a fazia gozar-se inteira; e os gemidos, proibidos, eram encobertos pelos beijos. Batidas na porta do banheiro, seus nomes jogados ao vento, e ela colocou-o sentado e penetrou-se resoluta, dando início à cavalgada. Ele estava por um fio e a fêmea enlouquecida rebolava em seu pau rijo, revesando estocadas, provocando calafrios até o gozo.

Cúmplices e ofegantes se olhavam. Um cigarro a esperava. Riram do mundo, abraçados e leves, enquanto seus nomes, misturados, uníssonos, ainda ecoavam lá fora.

2 comentários:

Filipe Lopes disse...

Misericórdia!
É um tal de arrancar de versos...

Mayra disse...

pfff, não é que o negócio aqui melhora e melhora?