Desfeito o silêncio, o instante trôpego

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Deitada de costas, estipulei que naquele dia, não haveria penetração. Nem no corpo, nem na alma. Minhas entranhas estavam fechadas e eu era de um convexo inexplorável naquele instante. Queria antes uns beijinhos de leve, dos pés à nuca, um outro sentido lingüístico para minhas entradas todas, desde os poros aos recônditos da minha vagina.
Então ele veio, sorrateiro, engolindo lentamente meus pedaços, um a um, de um modo preciso, de um modo circular, de um modo... E eu completamente fingida num silêncio preenchido por pequenos uivos, eu e ele, eu e ele... E sua língua e eu e meu corpo e seu cheiro e o meu... E ele subindo aos poucos, encontrando vãos, deslizando os desejos todos... E eu sentia suas mãos ofegantes a buscarem um sim qualquer que o impelisse ao mais, ao tanto mais que ali havia e eu fingia... Fingia descaradamente que não entendia nada, enquanto a minha respiração entregava o todo e eu... E eu pulsante revirei do avesso e me entreguei inteira àquela maneira descabida de amar, e ele já sabia, ele já sabia que eu fingia e nada, nada naquele momento impediria o encontro.
Um gozo imenso penetrou-me inteiro e entre suores, despudores e calafrios intensos eu me vi surtada, num não-lugar distante naquele instante agora, eu só queria mais e ele não metia. Fingia. E eu agora era um sim rasgado e ele então encaminhava o verso e revirava os olhos num desprezo suspeito e eu não agüentava e lhe implorava mais.
E nesse jogo mergulhamos juntos e ele em mim entrou e a parede fria sentiu nosso calor e derreteu o outrora e se apagou no chão os devaneios tolos e me entreguei inteira e nada mais havia e ele me sugava e ele me batia e ele me deitava e eu ardia toda, como se fôssemos mar, como se fossem ondas, alucinantes versos, modos imprecisos, penetrações diversas e o mundo se acabando e a gente não sabia.
Éramos dois e daquela noite que não se findaria num instante claro, apenas restaria mais desejo insano e novas vontades no amanhã incerto. E eu gritava tanto e dilatava toda e ele me olhava e invadia fundo e eu me contorcia e ele rebolava e nesse vai e vem a madrugada inteira e aquilo que não era no agora se formava, e entre um gozo e outro portas se abriam e delatava o amor ainda pouco dito.
E no final de tudo ainda mais restava, como o início do silêncio que Smetack não ouvia, mas as forças eram nulas e os corpos fétidos, clamavam uma pausa - ainda que sofrida. Jogados ao chão, dois encantados éramos, não havia palavras e nem sentido havia. Nossas mãos se encontraram e num suspiro único, fechamos nossos olhos, pois já nos sabíamos.

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3 comentários:

Livro Aberto disse...

que frenesi! rs

Juracy dos Anjos disse...

Calores me tomam o corpo. Que coisa intensa!!!!

Domí Miranda disse...

Quando apenas um carinho satisfaz, a mente e o corpo estão em sintonia.